Crítica: “Os Vingadores: Era de Ultron” não faz do segundo team-up algo inesquecível



The Avengers: Os Vingadores (2012) foi um filme-evento que mexeu com os nervos de todos os nerds que dedicam alguma fatia de tempo para acompanhar as histórias de super-heróis. A construção do universo cinematográfico da Marvel e sua solidificação no primeiro filme, dirigido por Joss Whedon, já é visto como um marco da cultura pop. A Disney, então, chama o diretor responsável pelo sucesso para dar continuidade à história.

Mesmo que não gostemos de comparar obras entre si por poder parecer um relativismo superficial, é impossível não falar de Vingadores: Era de Ultron sem puxar partes do primeiro, bem como sem olhar para os futuros longas (Vingadores 3: Guerra Infinita). Fazemos isso porque os filmes d'Os Vingadores tentam claramente ser o ponto de equilíbrio de cada fase que a editora leva às telonas.

Se em 2012 a história vinha para montar o time, depois de filmes individuais que apresentavam os personagens, aqui Whedon quase tenta fazer o movimento inverso. É necessário haver uma cisão na equipe ao mesmo tempo em que sua essência de agrupamento não se perca. O trabalho não era mesmo fácil e, nesse processo, algumas partes acabaram ficando soltas ou desconexas.



A produção em si traz um senso de colagem estética muito evidente em suas cenas e planos. A primeira sequência é quase uma cut scene inicial de algum game de tão plastificada visualmente. Isso parece dar um senso de falta de polimento na pós-produção que pode tanto ser verdade, quanto atribuído ao 3D, mais uma vez desnecessário. Em alguns momentos são usadas câmeras que tentam capturar a ação de um modo documental e algumas técnicas que pretendem chamar outros gêneros, como o terror, para dentro do longa (movimento visto bastante quando a Feiticeira Escarlate, vivida por Elizabeth Olsen, aparece). Nada disso muito bem empregado.

O mesmo se reflete no roteiro. A linha narrativa soa pouco orgânica. Obviamente não era o caso de repetir o senso de formação do primeiro longa, já que aqui o objetivo é justamente mostrar que essa equipe tende a se separar (como veremos de forma cabal em Capitão América 3: Guerra Civil). O problema é que existe uma má colocação de subplots dentro da montagem e isso faz com que perca fluidez. Além disso, há subtramas que são construídas com pouco mais de três frases entre alguns personagens. Dessa maneira, temos uma perda do desenvolvimento em conjunto e ganho em frases de efeito aleatórias pouco eficientes. Ainda por cima o filme traz alguns discursos incompletos. Por exemplo, quando Whedon coloca Viúva Negra (Scarlett Johansson) dizendo que, assim como Hulk (Mark Ruffalo), ela também é um monstro por ser uma assassina treinada, no meio há menções sobre gravidez e esterilidade. O diálogo poderia ter sido melhor trabalhado para não dar margens à ambiguidades.

Contudo, nada disso interfere na atuação que os envolvidos já se acostumaram a entregar. Entre os novos personagens o maior destaque fica claramente com o Ultron de James Spader. Sarcástico e cínico, o robô quase nos faz esquecer do gritante clichê que é uma inteligência artificial chegar à conclusão de que os humanos devem ser extintos. Sem ser caricato, o vilão entrega um atagonismo à altura de uma superequipe. O andróide Visão (Paul Bettany) também ganha pontos e brilha no meio do caos com sua estranheza e ingenuidade benevolente. Os gêmeos Wanda e Pietro Maximoff (Aaron Taylor-Johnson) têm seus papéis sobrepesados entre si. Enquanto ela é posta sempre na frente, ele é deixado de lado, permitindo até mesmo prever seu futuro com rumores prévios.

Outros acertos que são feitos copiosamente são nas duas grandes cenas de luta do filme. O confronto entre Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e Hulk poderia ser entediante devido ao número baixo de personagens (somente os dois) e ao tempo de tela dedicado à sequência. Entretanto, a coreografia nela é quase mais megalomaníaca e incrível quanto a da batalha final. Nessa, todos os heróis se juntam para um verdadeiro hack and slash de milhares robôs-cópia de Ultron. Há um toque pós-moderno no confortável acompanhamento estético da cena.

Fica claro que Vingadores 2 tinha a missão de dividir um pouco a equipe para, assim, mostrar que o time sobrevive com outros membros. Na necessidade de inserir prováveis futuros personagens fixos, como Falcão (Anthony Mackie) e Máquina de Combate (Don Cheadle) que dão suporte em alguns momentos, o filme consegue fazer isso sem se estender muito. Porém, seus acertos pontuais não conseguem deixar a produção acima da média. Como vimos ano passado e provavelmente também veremos neste (Homem-Formiga: não nos decepcione) que a Marvel ainda consegue surpreender positivamente. Este pode não ter sido um longa-metragem de ouro, mas uma era não se faz apenas com duas horas e meia de duração.



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