Conversamos com Mercedes Mason de “Fear The Walking Dead”, que estreia hoje!



Hoje estreia em diversos cantos do globo um dos spin-offs mais aguardados do ano, Fear the Walking Dead. Nós tivemos a oportunidade de assistir a première exclusiva para a imprensa (confira a crítica). O piloto vai será transmitido, às 22h, no canal da TV paga AMC Brasil.

Antes de adentrar no início do cataclisma zumbi, que tal conferir uma entrevista com Mercedes Mason, que interpreta a Ofelia da série? Conversamos com a atriz, que mora na mesma cidade em que se passa a trama, Los Angeles.

Apesar do nome e recorrentes papéis latinos - como em Castle e NCIS: Los Angeles -, Mercedes nasceu em Linköping, Suécia, e se mudou com os pais para os Estados Unidos quando tinha 12 anos. Extremamente gentil e fofa, ela revelou algumas informações da trama e refletiu sobre o possível impacto do seriado no público.

Assim como Ofélia, você também é de família imigrante. Como essa experiência pessoal lhe ajudou a construir e se conectar com a personagem?

O sofrimento da diáspora é algo que tornou possível e intensa minha identificação com Ofelia, e também facilitou a imersão no papel. Como filha de imigrantes, sei o quão protetores podem ser nossos pais. Barreiras culturais e linguísticas não são superadas rapidamente. Eu me lembro de quando chegamos aos Estados Unidos, não foi fácil e tínhamos várias dificuldades. Muitas vezes meus pais precisavam que eu e minha irmã traduzíssemos diversas coisas para eles.

Você acaba fazendo o papel de responsável por seus próprios pais e, inevitavelmente acaba sendo também super protetora com eles. E ofelia precisa desempenhar esse papel, especialmente com sua mãe que não tem conhecimento da língua inglesa. Enquanto a filha não tiver certeza de que seus pais possam ter uma boa vida e encontrem recursos para se tornarem bem-sucedidos, ela se esforçará para ser uma boa filha e cuidar deles como eles zelaram por ela.

Em oposição a isso, ela é uma garota inocente que ainda não se conhece totalmente. No decorrer dos eventos, ela acaba se deparando com problemas que nunca havia enfrentado ou sequer sabido lidar antes, sobretudo quando descobre alguns segredos de seu pai. Esse desafio faz com que a jovem questione tudo o que acreditava sobre a ideia de família, além de outras possibilidades de análise desse ideal. Antes tudo o que ela precisava fazer era tomar conta deles e agora, com o caos geral criando raízes, Ofelia precisa também aprender a cuidar de si mesma. Pois, no fim das contas, não pode confiar totalmente em ninguém além dela mesma.

Diferentemente dos EUA e América Latina, sua terra natal é um país reconhecido pela igualdade de gêneros. Ao longo de sua carreira, você interpretou personagens que questionam a suposta fragilidade das mulheres. Podemos esperar um quê de empoderamento feminino na trama vivida por sua personagem?

Essa é realmente uma ótima pergunta (risos)! Sempre que você demonstra força em uma personagem, percebo que isso auxilia na identificação do público feminino. Principalmente no momento em que a espectadora reconhece um problema pessoal no conflito vivido pela personagem. Por exemplo, como imigrante eu me conecto instantaneamente com Ofelia.

No momento em que ela descobre não poder mais confiar plenamente em sua família e já não sabe mais o que seu passado realmente significa, e, consequentemente, tem de aprender a se virar e se tornar forte para sobreviver, se vê obrigada a explorar seu potencial para alcançar sua própria segurança.

Acho que isso pode ser muito útil às mulheres, particularmente às mais jovens. Você pode contar só consigo e ter confiança em si mesma. Você tem força! Qualquer pessoa pode alcançar algo quando precisa e se esforça para tal. Quando nos deparamos pela primeira vez com Ofelia, vemos que ela é a garotinha do papai. No decurso do entrecho, ela aprende muita coisa em um curto espaço de tempo. Qualquer um pode se reconhecer nesse conflito. Acredito que isso possa empoderar muitas mulheres e mostrá-las que elas não precisam de ninguém a não ser delas mesmas para adquirir essa força.

Você trabalhou em outros filmes e séries de suspense e terror, como Quarentena 2 e 666 Park Avenue. Quais são as principais diferenças desses enredos com o do universo de Robert Kirkman (criador dos quadrinhos, de The Walking Dead e de Fear The Walking Dead)?

Obviamente, receber um papel em um novo filme é sempre animador. Entre as razões que me fazem adorar o universo de The Walking Dead, há a despreocupação com relação ao direcionamento que o script seguirá. Por conta da série original, sei que é grande a aceitação e estima do público. Isso me transmite confiança para viver na pele de outra pessoa durante um bom tempo. Para uma atriz, isso é fantástico! Me sinto com muita sorte por ter essa oportunidade, porque isso não é algo muito usual.

Quando você participa da rodagem de um filme, isso pode durar uns dois ou três meses, e você precisa se despedir da personagem. Fear The Walking Dead me possibilita conviver com Ofelia e vivenciar seu amadurecimento e como ele ocorrerá. Isso é algo profundamente recompensador em atuação. Especialmente em um formato contínuo como o de TWD, que possui criadores e escritores brilhantes. É maravilhoso participar desse processo criativo e criar essa relação de confiança com os roteiristas, visto que eles precisam lhe representar adequadamente. Eles são muito competentes em fazer jus a essa representação da personagem pelo intérprete. É por isso que estou adorando tanto atuar nesse projeto. É como ganhar na loteria (risos). Pense bem, fazer parte de um programa de tanto sucesso e ter diversas pessoas no mundo te assistindo... O que mais eu poderia desejar? É demais!

Com um expressivo número de personagens latinos na trama, como você a enxerga a importância da representação dessa minoria no contexto estadunidense? Acredita que haverá uma melhor conexão com a comunidade latino-americana ao redor do mundo?

Como disse antes, uma das coisas que eu adoro na série é o quão factível ela é. A história se passa em LA, uma cidade com uma comunidade de classe trabalhadora, com uma expressiva quantidade de latinos que trabalham duro. O interessante é que somos representados como uma família como qualquer outra. Mas não de uma forma apenas individualizada, como "Olha, são só aquelas pessoas" ou "Apenas os latinos", mas integrada.

Temo que as pessoas possam entender como um problema de apropriação cultural quando me refiro na primeira pessoa à comunidade hispânica. Na verdade, o que quero dizer é que adoro o fato da família ser latina não ser o foco, e sim seus laços afetivos. Na maioria das vezes, se você pertence a uma minoria, não se vê representado em papeis principais ou sob os holofotes na mídia, especialmente na Hollywood de um passado não tão longínquo. Agora esse espaço é possível e espero que as coisas continuem a mudar.

Quando essa representação de uma minoria acontece, como em Fear The Walking Dead, é historicamente algo muito relevante. Essa é a beleza da trama: todos estão no mesmo barco, ninguém é melhor que ninguém. Ninguém é mal representado ou apresentado de forma estereotipada. Todos são humanos, com suas forças e fraquezas. E acredito que o mundo precisa ver isso! Creio que Hollywood tem um papel de suma importância nesse processo. E é preciso ter cautela para não contribuir com a perpetuação de papéis superficiais que criem estereótipos. Dessa forma, as pessoas podem ver que todos nós somos parecidos. Apenas temos diferenças culturais e de opiniões, que também são importantes. No entanto, quando nos desprendemos disso, nossa humanidade nos iguala. Creio que isso é algo maravilhoso e está muito bem plasmado na série.

Poderia mandar uma mensagem ao público brasileiro e falar um pouco sobre o ritmo de Fear The Walking Dead? Além disso, qual a conexão das tramas e como ocorrerá o encontro do tempo da narrativa do spin-off com o da original?

Primeiramente, eu gostaria de dizer que adoro o Brasil e amo brigadeiro. Obrigada por inventá-lo, gente! Gostaria de comer isso todo dia (hahahaha!).

Com relação a série, acho que uma metáfora feita por um dos roteiristas explica perfeitamente a beleza do seriado. É como ligar um carro, inicialmente é fácil. Você primeiro pisa no acelerador e vai devagar. Uma vez que você acelera, a velocidade aumenta as coisas acontecem subitamente. Assim é o primeiro episódio. Inicialmente tudo é corriqueiro, todos vão trabalhar, vão para escola e aparentemente não há nada errado. De repente, pouco a pouco essa normalidade vai desmoronando. Quando as personagens se dão conta que seu mundo não é mais o mesmo, abruptamente as coisas ficam tensas e eles se veem encurralados. Mas não há outra escolha senão lutar pela sobrevivência. Quando a família Salazar (da qual Ofelia faz parte) é introduzida, no segundo episódio, eles aparecem agindo de forma a sobreviver, dada a ameaça ser sentida, ainda que não totalmente palpável.
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