Crítica: em “Glory”, Britney Spears retoma o poder divino de Princesa do Pop



Depois de três anos sem lançar um álbum novo, Britney Spears aparece com Glory enquanto vive uma boa fase na carreira com sua residência em Las Vegas. O novo compacto de Britney Bitch foi trabalhado por muito tempo, em um processo de criação sem pressa. O resultado foi algo que excedeu, e bastante, as expectativas do público.

Com um time de mais de 15 produtores, o CD reflete essa grande tripulação: Glory não é um álbum conciso e, justamente por isso, consegue trazer diversas canções diferentes. Por tudo o que Britney tem nos apresentado em anos, isso é bastante bom. Algumas músicas conversam entre si, mas quando olhamos a figura de cima, percebemos como esse trabalho está mais preocupado em nos dar pedaços gostosos de diversos sabores.

Tudo começa com "Invitation", que serve perfeitamente como introdução com sua sonoridade midtempo etérea e sexy. Falando sobre sexo, um dos temas mais recorrentes do disco, a canção mergulha em um r&b contemporâneo sem deixar o pop de lado. "Make Me..." faz o mesmo movimento, mas aqui o som é um pouco mais upbeat e, infelizmente, ganha o rap parco e sem vida de G-Eazy. Vemos novamente o amor da Princesa do Pop pelo r&b quando ela nos mostra em "Just Luv Me" (com uma minutagem grande demais, é verdade) que está ciente de como esse gênero se atualizou de uns tempos pra cá. Em "Slumber Party", a produção então apenas pinça essa sonoridade, puxa algumas percussões, instrumentos de sopro, não esquece dos sintetizadores e pesa a mão no reggae-pop para nos entregar uma das melhores músicas de Glory.

Britney ainda brinca com construções melódicas de forma bem interessante, fazendo com que várias canções tenham blocos musicais dentro de si que juntos combinam. Ouvimos isso claramente em "Love Me Down", mesmo usando macetes conhecidos do público no refrão repetitivo, e "Clumsy", que parece costurada para soar como canções de musicais. Essa ideia dos palcos reaparece ao final da versão standard, com "What You Need", em que a percussão é quem comanda todo o ritmo, deixando um espaço perfeito para as brincadeira vocais da Legendary Miss Britney Spears.



Ela inclusive tenta fazer as firulas da voz funcionaram em um momento anterior, com "Private Show". Contudo, aqui isso fica meio caricato. Ao menos, na sequência da tracklist, "Man On The Moon" trabalha seu timbre de forma bem mais limpa. Os instrumentos de corda e a vibe teen-pop-encontra-dance são perfeitas para nos fazer lembrar de como Britney consegue trabalhar com seu gênero musical da maneira que quiser. Isso nos é recobrado em "Do You Wanna Come Over?", que desperta a sensação de um pop do começo dos anos 2000 com sua guitarra e melodia orgânica aparada de vários outros sons.

Em "Just Like Me", Britney trabalha isso de uma forma diferente, criando uma canção, aos seus moldes, quase stripped  com um violão e sua voz mais natural do que qualquer outra canção do álbum, além de "Change Your Mind (No Seas Cortés)". Nessa, ainda somos surpreendidos com um bridge quase inteiramente em espanhol falado. Essa experimentação de linguagem ganha um expoente máximo inesperado na última canção, "Coupure Électrique", totalmente em francês. Interessante notar como somos levados novamente para a sonoridade fluida da primeira música do álbum.

Antes disso, Spears ainda arranja tempo para se mostrar mais uma vez atenta ao cenário musical atual com o house-reggaeton em "Better" e o trip-hop - tão próximo ao electrofunk brasileiro e que ainda continua sendo revisitado mundo afora - em "If I'm Dancing". Como se não bastasse, o álbum ainda joga um pouco de rock misturado com eletrônico em "Hard To Forget Ya" - que tem um refrão básico e nada impressionante - e junta western com soft-rock em "Liar", uma das mais surpreendentes.

Após tantas sonoridades, percussões, instrumentos de sopro e corda, palmas, sussurros, coros, línguas e sintetizadores, Glory se mostra um trabalho extremamente diverso. Ao olharmos para ele, conseguimos vê-lo muito mais como uma compilação do que exatamente um álbum. É muito comum cantores novatos fazerem produções que atirem para todos os lados com a sorte de criar um hit dentre várias canções. Depois de anos de carreira, Britney não precisa mais disso, então o que temos aqui é o resultado da vontade de experimentar.

A Princesa do Pop ainda é extremamente rentável para sua gravadora e para ela mesma. Seus shows levam as pessoas até ela e Glory é o resultado de uma artista que pôde levar o tempo que quis para fazer aquilo que teve vontade. Faria muito mais sentido se as canções do disco fossem lançadas com o passar do tempo, como um grande projeto e não em um LP, como Britney já deu a entender que queria fazer um tempo atrás. Esse seria um caminho mais interessante, mas ainda estamos felizes com o que ganhamos.

Glory não tem uma coesão artística no sentido de que foi pensado para passar um conceito e ser trabalhado enquanto uma obra completa, mas tem um cuidado refinado em cada uma de suas músicas e faz isso sem deixar de colocar a marca de Britney em todas elas, o que é o mais importante. Em toda sua carreira, Brininha sempre foi uma hitmaker, mas comparando singles com álbuns, esses últimos eram quem atingiam cifras enormes em vendas. O compacto é incrível, mas não é algo que aponte para uma nova sonoridade ou institua novas maneiras de fazer música, como alguns discos de Spears fizeram, mas tudo bem, ele não precisa. Mais do que isso, Glory é a confirmação que Britney ainda tem paixão pela sua música. Que ela continue assim, amém irmãos?


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