Crítica: entre surpresas e poréns, “Animais Fantásticos” reintroduz universo mágico



E finalmente chegou aos cinemas brasileiros, hoje, dia 17, Animais Fantásticos e Onde Habitam.

O aguardado longa surgiu da ideia inicial da Warner Bros. de criar um mock-documentário com base no livro homônimo, um glossário sobre animais mágicos presente na lista de materiais de Hogwarts, que J.K. Rowling lançou em 2001. À proposta do estúdio, a escritora revelou ter uma história para contar, acompanhando as aventuras de Newt Scamander, seu autor fictício, inicialmente passadas na Nova York dos anos 20.

Assim fomos apresentados ao projeto, ainda em 2013 e, desde então, principalmente nos últimos meses, em que a promoção do filme foi intensificada, soubemos que a premissa de caça à criaturas fantásticas era apenas o pano de fundo para J.K. expandir ainda mais o universo que criou.

Esse objetivo é atingido com sucesso pela produção, que consegue apelar para a nostalgia de seus espectadores, trazendo à tela um mundo que lhes é familiar, de maneira enriquecedora e não-estática. E mais: o filme ainda consegue se destacar por suas diferenças à série original não só dentro de tela, mas em todo o contexto que envolve seu lançamento, mesmo em meio a um enorme revival de Harry Potter, com materiais como peças teatrais e relançamentos especiais.



No entanto, Animais Fantásticos encara a tecnicidade cinematográfica e transpõe tais barreiras de modo, em alguns momentos, bastante duvidoso.

Parte disso se deve ao fato de J.K., que assumiu o cargo de roteirista, estar fazendo isso pela primeira vez na vida. Diferente de exemplos como Dan Brown, a britânica não tem um estilo "hollywoodiano" de escrever, e dá pra sentir que essa transposição de mídias foi penosa e cheia de intervenções - que David Yates e David Heyman, respectivamente diretor e produtor dos filmes, revelaram fazer.

Há muitas idas, vindas, atalhos ou preenchimentos desnecessários no roteiro, algo que afeta diretamente no ritmo do filme, que intercala ação e vagareza, tornando-o mais cansativo que os da saga HP, mesmo tendo em média uma hora a menos. Também por isso, falta espaço para ser didático de modo orgânico - a ameaça principal da trama, cujo conceito é inédito até aos fãs ferrenhos da saga, é explicada de modo super apressado.

E se roteiro afeta a mídia cinema, o contrário também acontece. O longa traz momentos bem nonsenses - sim, até mesmo para algo sobre magia - que claramente foram geridos em nome de cenas mais grandiosas e bonitas. Dois exemplos claros são as forçadas passagens da captura da cobra Occami numa lojas de departamentos e, bem ao fim, a solução encontrada pelo Congresso Mágico dos EUA e os protagonistas para continuar mantendo os bruxos ocultos aos olhos dos não-majs.

Mas a produção também tem méritos que merecem ser exaltados. Talvez o principal deles seja o fato do filme ser, como diria Peppa Pig, "adulto", de maneira bastante natural. Não há um esforço descomunal em parecer mais sombrio e violento para se adequar aos fãs, que já estão crescidinhos. O filme simplesmente o é. Há uma certa crueza e crueldade no modo que a comunidade bruxa estadunidense lida com os seus problemas, que, por sua vez, são um reflexo da retrógrada sociedade norte-americana na época.

E não são só os temas (alegóricos ou não) e o clima soturno que fazem o longa sair da casa do "infanto-juvenil" naturalmente. Boa parte do alívio cômico da história tem um teor levemente sexual. Há, por exemplo, um momento em que Queenie (Alison Sudol) ameaça um funcionário do MACUSA de contar que ele andou pulando a cerca. São coisas simples, mas que a gente nunca imaginou inseridas a Harry Potter.

Por falar em Queenie, sem dúvidas seu personagem é um dos destaques, junto ao de Jacob Kowalski (Dan Fogler) - principalmente quando juntos. Eddie Redmayne também tem um ótimo desempenho como protagonista, fazendo um Newt completamente excêntrico e empático, tornando impossível não se identificar com seu amor aos "bichinhos" - ele é quase uma mistura de Hagrid com Luna.

Ah, outro ponto positivo é que, mesmo que pontos cruciais tenham sido revelados antes do lançamento, durante a sua intensa divulgação - como o envolvimento de Grindelwald (Johnny Depp) à trama - ainda há surpresas e easter-eggs para deixar o potterheads de coração na boca.

Em suma, podemos dizer que Animais cumpre bem o seu papel de reintroduzir o espectador ao universo bruxo, mesmo com alguns poréns. Ainda há outros quatros filmes futuros, que parecem bem promissores, principalmente porque não precisarão vender tramas secundárias como plots principais, visando o sigilo. O futuro (do passado) do mundo mágico de J.K. Rowling continua convidativo e brilhante!


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