Crítica: 2ª temporada de “Love” expande e entra mais fundo nos relacionamentos



Depois de conhecermos Mickey Dobbs (Gillian Jacobs) e Gus Cruikshank (Paul Rust) ano passado na estreia de Love, a Netflix decidiu continuar a história do relacionamento desses dois em uma segunda temporada. Os criadores - Judd Apatow, Lesley Arfin e Paul Rust - prometeram uma olhada mais pé no chão das relações amorosas. Eles entregam isso e existe uma surpresa - boa ou ruim, cabe ao espectador decidir - em como é nos passado.

Mesmo com essa visão realista das relações românticas, Love nos mostra já em seu primeiro episódio que não esquece de divertir seu público com algumas situações meio ridiculamente cinematográficas. Isso porque existem pequenos polos narrativos que permitem que os roteiristas brinquem com aquele mundo. Temos um confinamento forçado no condomínio de Gus, alguns personagens experimentando cogumelos mágicos e o relacionamento-desastre digno de comédia romântica entre um colega de trabalho de Mickey e a namorada. O que fica interessante nesse mix é que a maioria dos episódios nos leva para mais dentro dos personagens.

Com essa mistura bem feita, Bertie (Claudia O'Doherty) felizmente ganha mais tempo de tela, ainda mais pelo fato de que ela começa a desenvolver seu próprio relacionamento amoroso. A dinâmica entre Claudia O'Doherty e Mike Mitchell (que interpreta Randy, o namorado dela) faz com que seus personagens, por várias vezes, pareçam ser o centro do argumento desenvolvido em algumas partes da temporada. Aliás, esse movimento é importante para ajudar a contrapor a relação dos dois com a do casal principal, o que faz com que Mickey e Gus pareçam estar num bom lugar no relacionamento. Isso é, caso alguém tenha se deixado enganar que as coisas ficariam bem para sempre.



Os protagonistas ganham mais camadas nessa segunda temporada. Vemos um lado desconfortavelmente controlador de Gus, como a dinâmica com os amigos afeta a vida dele (ainda mais quando são todos solteiros - exceto Randy) e de que maneira a proximidade com Arya (Iris Apatow) - a atriz que ele tutora no set da série Bruxaria - dita sua visão profissional. Já com Dobbs, vamos ainda mais fundo, explorando tanto seu trabalho e amizades com os casais de amigos, mas também com seu pai, Marty (Daniel Stern).

A questão é que conhecer Mickey deixa a personagem em evidência e a transforma no assunto principal de outros grupos. Temos três episódios específicos em que isso ganha mais força: "The Work Party", "Friends Night Out" e "Housesitting". Neles vemos como as outras pessoas percebem Mickey e é interessante notar que isso não acontece muito com Gus. Quem mais fala o que pensa sobre Cruikshank é Dobbs, o que nos dá uma visão bastante unilateral dele.

Colhendo informações que nos são dadas por personagens, e não situações, sabemos que Mickey era usuária de drogas, alcoolista, tem problemas com o pai, é percebida como alguém destrutiva pelo ex-namorado e alguns amigos a enxergam como infeliz. Já de Gus descobrimos que ele tem três irmãos, cuida da casa de um ex-ator mirim, nunca se drogou e é muito condescendente - pela visão de Mickey. A questão é que a personalidade da personagem de Gillian Jacobs é construída pelas atitudes delas e pela visão externa de outros, enquanto as ações de Gus falham em nos mostrar quem ele é, já que tudo se resume a como Dobbs o enxerga.

Tudo isso parece um pouco problemático quando o que estamos vendo é a relação dos dois e de repente toda negatividade parece ser atribuída apenas à Mickey. Vimos um apontamento para isso na primeira temporada e agora parece ter se intensificado. Contudo, onde está a tridimensionalização de Gus quando o que ganhamos em abundância é a personalidade negativa de Dobbs suportada pelo que as pessoas ao entorno pensam dela?

Quando os dois estão separados, há uma cena em que Mickey diz que pediu para Gus ligar sempre às 18h em ponto e nunca deixar de respondê-la por mais de 30 min. Ela se considera louca por ter sugerido isso, mas questiona: "Mas ele também não é louco de aceitar esse acordo?". Essa pergunta é um dos pontos-chaves de tudo o que vemos nessa temporada: não é possível construir uma relação se nos ausentamos enquanto indivíduos. No momento em que estão distantes um do outro, percebemos como Gus tem dificuldade de se entender enquanto sujeito e Mickey não. Claro, tudo fica mais complexo quando durante esse período ela volta a se relacionar com o ex. Pois é, não dá para negar que a personagem faz escolhas de merda.

O que vemos do relacionamento dos protagonistas parece abarcar por volta de dois meses e a escolha que Mickey faz para fugir do ex no season finale abre portas para desvendarmos mais camadas. Mesmo que atracada ao realismo, a série ainda parece ter dificuldade em mostrar de forma completa as duas partes envolvidas na relação, mas talvez esse seja o plano para a terceira temporada. Existe inteligência o bastante para que essa história não seja apenas o conto da garota danificada que encontrou o rapaz romântico sem causa, caso contrário Love se contentará com uma superficialidade que não parece fazer jus aos seus criadores.


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